Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

A Bruxa

Speed by : Marta

 

Não tenham medo da verdade. E perdoem-me as minhas mentiras. A verdade pesa demasiado em mim e é-me impossível carregar mais tempo este fardo que me toma o corpo e a alma desde pequena, recheando a minha vida de pensamentos terríveis que tenho de transportar para o papel de modo a sentir algum alivio.

 

Sou bruxa e nunca quis sê-lo. Vejo, oiço e sonho com coisas inexplicáveis que acabam por ser esclarecidas. Se vislumbro uma poça de água na estrada, vou mirar as figuras que lá aparecem, no espelho das nuvens, e o seu destino próximo. Quando vou ao meu miradouro no alto da serra, onde repousam os moinhos de vento, até as pedras falam comigo. Contam-me coisas boas mas igualmente coisas más, e a minha mente capta gemidos muito estranhos, alguns até assustadores.

 

As pessoas nunca quiseram olhar directamente nos meus olhos. Receiam a minha força. E no entanto, não existe nenhuma aura mística a rodear-me. Aparentemente, sou tão igual ao mais comum dos mortais. A minha infância foi extremamente difícil; desde cedo, tive de trabalhar para poder ter pão na mesa. Não me foram dadas as regalias típicas das outras crianças. Não me mandaram para a escola e  fui praticamente enclausurada. Já sabia ler, escrever e fazer cálculos matemáticos sem ninguém mo ter ensinado. Em tempos de lua cheia levavam-me para a floresta para aprender a escutar as vozes do vento, das folhas e da terra.

 

Mas eu não pedira para ter estes poderes. Não queria visões ou profecias, nem ler as mensagens nas estrelas. Apenas desejava o poder das palavras. Por ser diferente, afastaram-me das coisas mundanas e fui colocada num convento, numa terra no meio de nenhures onde apenas por uma minúscula clarabóia, podia vislumbrar o azul do céu.

À noite, sempre que podia, escapava-me vestida com a minha capa de capuz negra, atravessando a escuridão do pátio para ir dar aos aposentos de um mago que em segredo e durante alguns anos se tornara o meu mestre.

 

Ao meu mestre, contava as minhas mágoas, as minhas vozes, a minha vida privada de liberdade. Não podia resistir aos gritos que ouvia e a minha função era procurá-los, de outro modo, o mundo permaneceria cheio de almas em pranto. O mestre aconselhava-me sabiamente e ainda hoje, sinto a falta dele, do seu saber excepcional, que embora arcaico e que dirão pertencer à Idade das Trevas, me é tão precioso, porque sei reconhecer um espírito numa árvore ou desarmar alguém apenas com palavras.

 

E o meu mestre ia-me ensinando que nunca me tornasse desejável para outros homens, senão para ele, e eu, sem entender a sua intenção, contava-lhe que no convento havia homens que me visitavam durante as pausas da tarde e me rodeavam, tocando-me nos seios e ordenando que me mantivesse em silêncio. O meu mestre respondia-me que atirasse uma palha ao ar quando algum tentasse de novo aproximar-se, e deste modo quebraria o feitiço que os dominava.

 

Era fascinante, o Mestre, com os seus olhos negros de ébano, com as suas mãos compridas semelhantes a ramos de árvore, que passava as noites em silêncio, marcando símbolos estranhos numa tábua coberta de cera, enquanto eu permanecia atrás, perguntando junto ao seu ouvido o significado das figuras sobre a cera, ao que ele me respondia que levaria nove anos para descobrir, após os quais seria completamente livre dos meus poderes e desceria à nobre condição humana.

 

E ele virava-se para mim, olhando-me profundamente com aqueles olhos de ébano, enquanto as suas mãos se elevavam devagar desde os pés até aos cabelos, alisando-os e murmurando que eu seria dele durante aqueles anos e apenas ele poderia fazer passar a sua vara de jade no meu portão de jade como ele chamava a uma parte do meu corpo, que percorria habilmente com as suas mãos compridas e sorvendo pontos com a sua língua quente, levava-me a momentos de êxtase e de paz absoluta, após o que os nossos corpos permaneciam colados por um longo tempo.

 

Passados os nove anos, sei hoje que todas as suas palavras me aprisionaram como correntes grossas, porque eram mentiras e que tenho de aceitar que a minha vida não pode ser outra, senão a de bruxa, e embora a vida não tenha grande razão de ser sem a minha liberdade, sei que nas palavras serei livre até morrer. Permaneço contudo presa ao estigma de carregar nos ombros, os futuros alheios. E ensino sobretudo que as bruxas têm poderes que qualquer ser humano pode obter, embora alguns fingem ter o que não têm. Há que saber distingui-los, bastando para tal, tocar no coração. Se ele for macio, ela tem o poder. Se for de pedra, apenas finge. E mesmo para quem tem o poder, todo o amor que carrega não pode sarar feridas nem impedir a morte, e todos os que pedem ajuda a uma bruxa para aliviar sofrimentos ou obter graças egoístas não recebem senão uma resposta. Essa resposta é o silêncio.

 

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Speed by Lazy Cat às 00:01
| Speeds
14 comentários:
De Marta a 17 de Outubro de 2007 às 09:12
Thanks, Gata e Ki, é agradável ver este conto publicado, estava a custar-me tê-lo fechado no bau!

Beijos

Ainda se diz abracadabraaaaa


De Alma de Palhaço a 17 de Outubro de 2007 às 17:31
Olá Marta,
Faço- te uma vénia por este conto!
Se me permitires gostaria de o guardar para mim apenas!
Um beijo, por vezes são os outros que nos olham como bruxas/os apenas porque de certa forma somos diferentes? A mentira? Sim detesto-a...
Alma de Palhaço, beijo para todos que participam neste espaço e para quem teve a iniciativa :-)


De Alma de Palhaço a 17 de Outubro de 2007 às 17:34
"Há que saber distingui-los, bastando para tal, tocar no coração. Se ele for macio, ela tem o poder. Se for de pedra, apenas finge. E mesmo para quem tem o poder, todo o amor que carrega não pode sarar feridas nem impedir a morte, e todos os que pedem ajuda a uma bruxa para aliviar sofrimentos ou obter graças egoístas não recebem senão uma resposta. Essa resposta é o silêncio."

Dizes tanto aqui Marta, neste momento muitos merecem apenas o meu silencio!


De Marta a 17 de Outubro de 2007 às 21:10
Xiuuu :)
Alma de palhaço, podes levá-lo contigo
Beijo


De Alma de Palhaço a 18 de Outubro de 2007 às 22:27
Para todos os participantes e em especial para a Marta ;-)

Obrigada Marta vou guardar num sítio onde só lhe chega quem eu quiser e deixar...num cantinho no meu peito, do lado esquerdo...direito...pormenores.

Beijo ;-)


De mnike30 a 18 de Outubro de 2007 às 23:35
Olá "Bruxa"

Adorei ler este texto... ao som desta música!
Sim... a música dá-me cabo dos pensamentos (vá-se lá saber porquê)...
Sabes, parece que estive presente num filme... de uma outra era...num tempo muito distante perdido no meio de um intenso nevoeiro...

E olha, "o amor que carrega não pode sarar feridas nem impedir a morte", claro que não, mas o facto de se ter feridas e continuar a aceitar a presença do amor é por si só um silêncio (de bruxa)... que ajuda a aliviar sofrimentos.
Gostei desta tua "magia".

Espero voltar a ler.te@em_breve.aKi


De tugafixe a 19 de Outubro de 2007 às 10:55
Um conto muito interessante!
Gostei!

Beijinho!


De Marta a 20 de Outubro de 2007 às 09:36
mnike30 já é tão complicado actualizar o meu blog.. embora adore inventar contos, por mãos à obra requer muito do meu tempo e .. suponnho que sabes ;)
Besitos


De Lazy Cat a 19 de Outubro de 2007 às 11:01
De bruxos feiticieros e magos todos temos um pouco.
E é muito mais fácil acreditar em mentiras, que dizermos aceitar como verdades que rasgar o véu(romper correntes), abrir os olhos e escolher a liberdade. De pensar e sentir, de calar o coração, ou de parar, e ouvir...


De Marta a 20 de Outubro de 2007 às 09:37
e eu que nunca acreditei em bruxas ... :)


De Su a 19 de Outubro de 2007 às 23:54
"...embora a vida não tenha grande razão de ser sem a minha liberdade, sei que nas palavras serei livre até morrer."

Deus deu-nos os maiores dons,de ver,ouvir e falar...
E aos nossos sentires não podemos enclausurar.
Excelente conto!

Beijos na doce magia da Amizade.


De Marta a 20 de Outubro de 2007 às 09:39
Amstist1, não há dúvida que o poder de nos expressarmos nas palavras é uma grande dádiva. E tanto nos preenche quando nelas descarregamos os maiores sentires.
Beijo


De Sonhador de Alpendre a 22 de Outubro de 2007 às 00:40
Ai, as mentiras das bruxas mais os seus encantamentos endiabrados e poções, contudo, descobre-se agora que têm corpos desejáveis trocados por feitiços inconfessáveis, como brilhante deve ser uma noite mágica na cela de um convento (???) fechado com um cadeado sem chaves .
Bem imaginado a pedir continuidade...

sonhos embruxados


De Alien a 25 de Outubro de 2007 às 03:20
"E ensino sobretudo que as bruxas têm poderes que qualquer ser humano pode obter, embora alguns fingem ter o que não têm"


Magnifico conto Nita.
beijinhos


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… do frio

Frio?

frio tem remédio.....

any idea?

lots

such as....

such as....

pois... não estou a ver....

undressing slowly ...by the fireplace

no lights, only candles

mmmmm

sounds tempting

does it?

mmmmmmm

so far

music?

you're choice....

does it matter ?

it does, if I'm supposed to undress for you

nesse caso.....

a do video .. de hoje

(ando a fugir dessa música há semanas)

mas ok

já começou ?

 

Vai começar agora…

senta, sentas?

assim no braço do sofá....

enquanto chego à lareira

e solto o cabelo, para começar....

e sorrio e fico à espera

a musica é tua,

podes mandar

   mmmmmmmm

 

mandar ou...

levantar ?

 

decide tu....

 

e passo-te os dedos ...

por onde sei inventar.....

e sinto-te a pele ... a querer respirar

e vindo do nada... caminham para o tudo

onde as coisas acabam

onde as coisas começam....

 

onde se abraçam olhares

e se quebram promessas

 

e num frio de repente sinto escorregar

e entram momentos

que não vimos chegar....

e nos dedos perdidos.....

na vontade de voltar

 

dançam corpos em sombras incandescentes

em gestos lentos, em voz de arfar,

em cores esculpidas,

entre mãos perdidas,

em mares de quereres

e vontades contidas

 

e de repente .... tocou o telefone

e saímos a correr!

a casa não era nossa

don't!

e os da agência estavam sempre à espreita

lol

srry

é este meu lado do nonsense

que me assalta sem aviso

onde iamos?

o que estávamos a fazer?

 

 

onde?

queres saber?

íamos onde te puxo devagar

e desço pelo teu peito em beijos de molhar

em dentadas de beber e saborear

em mãos que te enlaçam, lábios que te procuram

e não se deixam provar

mmmmmmmm

em corpos que se encostam,

se procuram e se enroscam,

como gatos a sonhar

em sentir que despertas,

que a roupa te aperta....

que não queres esperar

em afastar-me sorrindo,

mandar-te um beijo e indo

para casa descansar!

 

boa?

...Hummmmmm....
Nova página 1

Humm… Quando de lábios te exploro e te mordo devagar, digo que te adoro, que te quero, que não posso esperar, quando a música nos toma, se faz nossa dona e nos obriga a dançar, quando somos só um, e a terra a girar, quando escrevo o que sinto e te deixas amar...

Nova página 1

 

Quanto me entendo contigo e te sinto como abrigo, e me revejo nos teus beijos e juntos criamos desejos...Quando  dançamos os dois sem amanhã nem depois, encontro-me no teu olhar, sentimos o ritmo que nos faz dançar... Quando as palavras se calam e só os sentidos falam...